A Meta despediu 8 mil pessoas para pagar a IA.
Não são as pessoas que estão a ser substituídas pela IA. É o orçamento de RH que está a ser redistribuído para IA. E a maioria das empresas não percebeu ainda o que isso implica.
No início do mês, Mark Zuckerberg confirmou o que muitos já suspeitavam.
A Meta vai despedir 8 mil pessoas — 10% da força de trabalho. E o CEO foi directo sobre a razão: os investimentos em IA e infraestrutura estão a crescer, e isso significa reduzir o tamanho da empresa. Nas suas palavras, se uma equipa que precisava de 50 pessoas agora precisa de 10, manter 50 é contraproducente.
Na semana anterior, já tinham surgido outras notícias, menos comentada mas igualmente reveladora: empresas que despediram trabalhadores para dar lugar à IA estão agora a recontratá-los — para treinar os sistemas que os substituíram. Com salários mais baixos e maior controlo.
Despediram pessoas. Investiram em IA. Perceberam que a IA precisa das mesmas pessoas para funcionar. Recontrataram-nas em piores condições.
Isto não é substituição. É redistribuição de custo — mal gerida.
O que isto tem a ver com o teu negócio
A Meta tem orçamento para errar à escala de 8 mil pessoas. Uma PME portuguesa não tem.
E a verdade é que a maioria das empresas pequenas não tem orçamento para investir 400, 1000 ou mais euros por mês em ferramentas de IA. Algumas nem departamento de marketing têm. Algumas nunca trabalharam com uma agência.
Mas o problema não é o orçamento. É a ordem.
Antes de decidir quanto investir em IA — ou se investir — há uma pergunta que quase ninguém faz: o que é que quero que a IA faça por mim?
Não em abstracto. Em concreto. Que tarefa específica, que processo, que resultado.
Sem essa resposta, qualquer investimento em ferramentas é ruído. É o equivalente a contratar uma agência sem saber o que queres que ela entregue — o erro que a minha cliente estava prestes a cometer: assinar uma proposta de valor significativo com uma agência que não sabia o que devia entregar.
A ferramenta certa para o problema errado não resolve nada. Só gasta mais depressa.
O padrão que vejo repetido
Empresas que adoptam IA por pressão — porque toda a gente está a fazê-lo, porque um concorrente anunciou que usa, porque leram um artigo — tendem a fazer uma de duas coisas.
Ou usam IA para fazer mais do mesmo mais depressa — sem questionar se o que fazem devia existir.
Ou compram ferramentas que ficam por usar porque ninguém dentro da empresa percebe o que devia fazer com elas.
Em ambos os casos, o investimento não gera retorno. E a conclusão que tiram é que “a IA não funciona para o meu negócio” — quando o problema é outro.
A IA funciona quando há clareza sobre o problema que resolve. E clareza não vem da ferramenta. Vem de antes da ferramenta.
A redistribuição que está a acontecer — e o que fazer com ela
O que a Meta está a fazer à escala é o mesmo que qualquer negócio vai ter de fazer à sua escala: decidir o que é feito por pessoas e o que é feito por sistemas. É uma decisão estratégica — e a maioria das empresas trata-a como logística.
Marina Mogilko — criadora de conteúdo com 18 milhões de seguidores em duas línguas — partilhou também este mês o que aconteceu quando tentou substituir os seus editores de vídeo com IA. Testaram todas as ferramentas disponíveis. Os resultados eram aceitáveis. Os editores humanos que contrataram depois eram notavelmente melhores. A conclusão dela: a IA não eliminou a necessidade de gosto. Acelerou as pessoas que o têm. E o aumento de produtividade fê-la querer contratar mais, não menos.
Se alguém com os seus recursos chegou a esta conclusão depois de testar tudo — o que isso diz sobre o custo de errar sem margem para experimentar?
Para tomar esta decisão bem precisas de saber o que o teu negócio realmente precisa. Onde estás a perder tempo em tarefas que a IA consegue fazer. Onde o julgamento humano é insubstituível. E onde estás a confundir os dois.
O Domina o Kaos é o programa onde trabalhamos exactamente este tipo de decisões — eu com foco em receita, a Rita Burmester com foco em relações e emoções sustentáveis. Porque um negócio que cresce precisa das duas coisas. As inscrições estão abertas.
A ferramenta certa para o problema errado não resolve nada. E o problema raramente é a ferramenta.
— Helena




