O que a LiveMode viu que tu não estás a ver
A LiveMode não comprou o Ronaldo. Identificou o que ele tinha e ainda não tinha monetizado.
Este verão, os jogos da seleção portuguesa no Mundial vão passar no YouTube — não na RTP nem na Sport TV.
A empresa por trás disso chama-se LiveMode. É brasileira, dona da CazéTV — 3,7 mil milhões de views no YouTube em 2025, 11 das 16 maiores transmissões ao vivo da história da plataforma. Esta semana anunciou que Cristiano Ronaldo entrou no capital como sócio estratégico.
Em vez de cachê, deu-lhe uma posição na sociedade.
O que cada parte tinha — e o que lhe faltava
Ronaldo tem mais de 660 milhões de seguidores no Instagram. É a pessoa mais seguida do mundo. O primeiro jogador bilionário da história. Nos últimos anos montou uma holding — imobiliário, hotelaria com a Pestana, clínicas capilares, 10% da Vista Alegre, água, ginásios, padel, MMA, uma participação na Perplexity.
Faltava media nessa conta.
A LiveMode tem o canal — um modelo já testado no Brasil que destruiu a indústria tradicional de direitos desportivos. A Globo, a ESPN, toda a gente teve de se mexer. O que a empresa ainda não tinha era distribuição internacional — construída ao longo de décadas em territórios específicos.
Ronaldo tem exactamente isso — na Europa, no Oriente Médio e na Ásia.
O acordo nasceu desse mapeamento. O que cada parte tinha. O que cada parte precisava. Onde estava o gap que nenhum orçamento resolvia — mas um acordo certo resolvia.
O activo central não é o conteúdo
Há uma leitura superficial deste negócio: a LiveMode contratou o Ronaldo para dar nas vistas. Mas é a distribuição e a comunidade o que interessa de verdade.
Para a LiveMode, a entrada de Ronaldo reduz o custo de aquisição de audiência em mercados onde seria extremamente caro entrar de outra forma — e para anunciantes e detentores de direitos, a plataforma passa a ter um rosto com 660 milhões de seguidores a dizer que isto é sério.
Para Ronaldo, é um activo de media no pós-carreira — uma posição na sociedade de uma empresa que vai transmitir 34 jogos do Mundial de 2026 em Portugal e a final da Liga dos Campeões, de graça, no YouTube.
O timing não é coincidência. Entrar antes do Mundial é entrar na maior janela de atenção desportiva global dos próximos quatro anos.
Sergio Lopes e Edgar Diniz, os fundadores, já tinham feito isto antes. Construíram o Esporte Interativo e venderam-no à Turner em 2015. Este é o segundo movimento com a mesma lógica: ver o sistema inteiro antes de fazer a proposta.
O que qualquer negócio pode aprender com isto
Numa viagem ao Algarve — num programa de mentoria onde fomos ambos convidados como mentores — comecei a desafiar o CEO da Swonkie. Não fazia sentido ele assinar os emails do produto quando se estava a posicionar como mentor de negócios e não falava de social media. A empresa precisava de alguém que desse o rosto pela área.
Conversa puxa conversa, começámos a falar sobre eu ser esse rosto.
A minha agência tinha uma máquina de conteúdo a funcionar e um método de social media testado e validado em clientes como a Texas Instruments, a Euromaster, a Yale Home, Assa Abloy, Arcádia Chocolates, Andreia Professional, Flama, entre outros. A Swonkie tinha o produto SaaS certo para escalar exactamente isso. O encaixe estava ali. O meu método acabou integrado na Swonkie — hoje disponível a qualquer utilizador em share.swonkie.com.
A jogada da LiveMode exigiu clareza sobre o que tinha nas mãos — e capacidade de ver o que faltava ao outro lado. Qualquer negócio pode fazer este exercício — independentemente da dimensão.
A maioria não faz. Monitoriza concorrentes, persegue métricas semanais, e ignora o que já tem e ainda não capitalizou: audiência acumulada, reputação sectorial, relações que abrem portas que outros pagam para abrir, conhecimento que resolve problemas que outros cobram caro para resolver.
O que é que tens que outra pessoa ou negócio quereria ter acesso — e que ainda não reconheceste como activo negociável?
— Helena


