A IA não é o teu maior problema
Talvez estejas a aprender as coisas erradas, porque são as mais fáceis.
Há uns dias marquei café com uma pessoa que conheci no LinkedIn.
Morávamos perto, trocámos duas mensagens e combinámos.
Não fui vender nada. Não fui “fazer networking”.
Fui conversar.
Falámos de trabalho, de carreiras, de cultura, de trabalho remoto e, inevitavelmente, de IA.
A meio da conversa, essa pessoa referiu este artigo do Daniel Goleman que tinha lido recentemente. Fiquei a pensar nele durante dias.
E a pergunta começou a formar-se, quase sem eu dar por isso:
Será que estamos a investir tempo, dinheiro e energia a aprender as coisas certas?
Ou apenas as coisas mais rápidas de aprender?
Vivemos num momento estranho.
Nunca houve tanta tecnologia disponível.
Nunca houve tantas ferramentas para acelerar tudo.
Nunca foi tão fácil “aprender” alguma coisa nova em poucas horas.
E, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil liderar pessoas, vender com confiança, comunicar com clareza ou criar relações duradouras.
Alguma coisa aqui não está a bater certo.
E foi isso que me levou a escrever este texto.
IA venceu o jogo das hard skills. E agora?
No artigo, Daniel Goleman faz uma distinção simples, mas poderosa.
A IA já iguala ou supera humanos em muitas hard skills: leitura, lógica, velocidade de processamento, reconhecimento de padrões, até bom senso em certos contextos.
Essa vantagem só vai crescer.
A tecnologia vai ficar mais rápida, mais barata, mais acessível.
Mas há um território onde a IA continua fraca e provavelmente continuará:
o das human skills, ou como ele lhes chama, heart skills.
Quando olho para este modelo, há uma coisa que me salta imediatamente à vista.
Nada aqui é rápido.
Nada aqui é automático.
Nada aqui se aprende sem fricção.
Autoconsciência.
Gestão emocional.
Empatia.
Leitura organizacional.
Gestão de relações.
São exatamente estas competências que:
não aparecem nos cursos de IA
não cabem em prompts
não escalam em massa
não se aprendem por imitação
E talvez seja por isso que são tão evitadas.
Num mercado obcecado com velocidade, estas competências são desconfortáveis porque obrigam a parar.
A observar.
A ouvir.
A lidar com nuance, ambiguidade e responsabilidade relacional.
A IA avança onde o raciocínio é linear.
Mas o trabalho humano relevante acontece onde o contexto muda, as pessoas sentem e as decisões têm impacto emocional.
E isso não se automatiza.
O discurso dominante celebra a vitória técnica.
Mas ignora a pergunta mais desconfortável de todas:
→ se todos temos acesso às mesmas ferramentas, onde está a verdadeira vantagem?
A IA acelera.
Mas acelera o quê, exatamente?
O novo FOMO: aprender ferramentas para evitar olhar para pessoas
Nos últimos meses, isto tornou-se evidente no mercado.
Explosão de cursos de IA.
Perfis a reposicionarem-se como “especialistas em prompts”.
Promessas mais ou menos explícitas de salvação de negócios, carreiras e faturação.
E atenção: aprender IA não é o problema.
Seria absurdo dizer o contrário.
Mas há algo que me incomoda profundamente neste movimento.
Hard skills são transferíveis, copiáveis, escaláveis.
Soft skills não são.
Escutar de verdade não se aprende numa tutorial.
Empatia não se instala numa ferramenta.
Autoconsciência não vem num template.
Ler uma sala, um cliente ou uma equipa exige presença, não automação.
E aqui entra o espelho desconfortável:
É mais fácil aprender um prompt do que aprender a ouvir.
É mais fácil automatizar do que assumir responsabilidade relacional.
É mais confortável dominar ferramentas do que confrontar os nossos próprios limites humanos.
Aprender IA é legítimo.
Mas aprender sobre pessoas dá muito mais trabalho.
Porque isto não é “soft”. É estrutural
Este é o ponto onde muitas conversas se perdem.
Quando falamos de inteligência emocional, empatia ou escuta, alguém diz logo:
“isso é importante, claro… mas é soft.”
Não é.
Marketing é leitura de pessoas.
Marca é empatia estruturada.
Vendas são escuta aplicada.
Comunidade é relação sustentada no tempo.
E fora do marketing?
Liderar sem inteligência emocional não escala.
Negócios sem confiança não sustentam receita.
Equipas sem autoconsciência quebram, mesmo com a melhor stack de IA do mercado.
Portanto, se marketing é receita, e receita depende de confiança, inteligência emocional deixa de ser ‘soft’ e passa a ser estrutural.
O paradoxo do nosso tempo
Nunca houve tanto acesso a conhecimento.
Nunca houve tanta fuga ao autoconhecimento.
E isto liga diretamente ao que escrevi na newsletter anterior.
Antes, tentávamos resolver tudo com volume.
Agora, tentamos resolver tudo com IA.
Em ambos os casos, o padrão repete-se:
→ usar atalhos técnicos para resolver problemas humanos.
A tecnologia não é o problema.
O problema é onde colocamos o foco da nossa aprendizagem.
É tudo sobre pessoas
Quando penso naquele café, percebo uma coisa simples:
As melhores reflexões continuam a nascer entre pessoas.
Não entre ferramentas.
Hard skills escalam. Soft skills diferenciam.
A IA acelera processos. Pessoas constroem confiança.
O futuro não pertence a quem sabe mais ferramentas, mas a quem entende melhor pessoas.
Automatizar sem consciência só acelera o vazio.
Talvez o verdadeiro diferencial competitivo do futuro não seja saber usar IA, mas saber ser humano num mundo cada vez mais automatizado.
Fica a pergunta, para mim e para ti:
→ Onde estás a investir mais tempo a aprender: ferramentas ou pessoas?
Talvez valha a pena observar isso com mais atenção
antes de automatizar o próximo passo.
— Helena


