Como criar conteúdo profundo mudou completamente a minha vida
Porque respeitar o tempo de quem lê é uma decisão ética — não uma tática de marketing
Em 2013, eu demorava entre 8 a 12 horas a escrever um único artigo.
Eu sei.
Leste isto e pensaste: o quê?
Hoje soa quase absurdo.
Na altura, não soava.
Não porque eu fosse mais lenta.
Mas porque escrever… dava trabalho.
E isso era um bom sinal.
Pesquisava. Investigava. Cruzava fontes.
Escrevia. Apagava. Reescrevia.
Não para publicar.
Para ficar.
Os artigos do Community Manager Portugal não eram feitos para cumprir calendário.
Eram how-tos a sério.
Daqueles que alguém podia ler meses depois. E ainda aprender.
Eu não estava a criar para o feed.
Estava a criar para memória.
E isso, sem eu perceber na altura, mudou tudo.
Antes de continuar, deixa-me perguntar-te isto — mesmo:
quando foi a última vez que respeitaste verdadeiramente o tempo de quem te lê?
Estás a criar para ajudar… ou só para cumprir?
O conteúdo que nunca foi viral — mas mudou tudo
Aquele conteúdo não foi viral.
Nunca “explodiu”.
Mas foi ele que:
me levou a trabalhar com marcas grandes como Texas Instruments, Euromaster, Yale Home, Assa Abloy, Prio Energy, American Tourist, Cavalinho e Andreia Professional
me trouxe os primeiros convites para aulas e palestras (IPAM incluído)
construiu uma reputação muito antes de eu saber o que isso era
Não foi o conteúdo rápido que me abriu portas.
Foi o conteúdo profundo.
E não, não era glamoroso.
Não era rápido.
Não era “otimizado”.
Mas acumulava.
Criava confiança.
Ficava.
Enquanto muita gente corria atrás do próximo post,
eu estava a construir algo que continuava a trabalhar quando o post desaparecia.
O momento em que comecei a confundir velocidade com valor
Com o tempo, a vida aconteceu.
Novos projetos.
Social Ninjas.
Para Lá do Marketing.
Marketing em Escala.
Trabalho full-time.
Aulas.
Palestras.
Gestão.
Maternidade.
Vida.
Nada disto é desculpa.
É contexto.
E no meio dessa acumulação, aconteceu algo desconfortável de admitir:
eu própria comecei a criar conteúdo mais raso.
Não mau.
Mas menos profundo.
Menos exigente.
Menos pensado.
E pior: comecei a celebrar escrever uma newsletter em 30 minutos.
Espera.
Lê isto outra vez.
Celebrar escrever uma newsletter em 30 minutos.
Isso devia ter sido um alerta gigante.
Porque quando começas a celebrar velocidade em vez de clareza,
alguma coisa importante já se perdeu.
Se peço atenção, tenho de entregar pensamento
Quem me conhece sabe isto:
sempre defendi respeito pelo tempo dos outros.
Para mim, conteúdo é uma troca justa:
atenção ↔ valor.
Se peço atenção, tenho de entregar pensamento.
E houve um momento em que percebi que já não estava a cumprir isso.
Não por má fé.
Mas por fadiga.
Por pressão.
Por ritmo.
Falamos de brain rot.
Falamos de fadiga digital.
Mas depois fazemos o quê?
Continuamos a produzir lixo rápido.
Continuamos a consumir checklists ocas.
Listas de ferramentas que nunca vamos usar.
Livros dados a LLMs para resumirem — em vez de os lermos.
Queixamo-nos que é difícil encontrar pessoas que pensem.
Mas criamos conteúdos que dispensam pensamento.
E depois fingimos surpresa.
E não sou só eu a sentir isto.
Basta olhar para o crescimento do Substack.
Não porque “as newsletters estão na moda”.
Mas porque, num mundo de feeds gratuitos cada vez mais rasos, milhões de pessoas estão a pagar por profundidade.
Em poucos anos, o Substack passou de cerca de um milhão para mais de três milhões de subscrições pagas.
Isto não é curiosidade.
É compromisso.
Quando alguém paga, não está à procura de estímulo rápido.
Está à procura de continuidade, contexto e pensamento que não precise de caber em 15 segundos.
Quem paga, presta atenção.
Foi isso que eu própria voltei a sentir quando decidi abrandar.
Quando voltei a escrever como pensava — e não como o feed pedia.
Podcasts longos como refúgio (e não como exceção)
O mesmo acontece com podcasts longos.
Num mundo obcecado com clips de 30 segundos, continuam a crescer conversas de uma, duas, três — às vezes quatro horas.
Pessoas como Jay Shetty, no podcast On Purpose,
ou Steven Bartlett, com o The Diary of a CEO, construíram audiências gigantes sem acelerar o discurso.
Pelo contrário.
Aprofundaram.
Não vendem velocidade.
Não competem por atenção instantânea.
Criam espaço para pensamento contínuo.
E isso diz-nos algo importante:
não é que o público tenha mais tempo.
É que está cansado de não pensar.
Não é por acaso que conteúdos longos mantêm as pessoas mais tempo, geram mais leitura e são mais partilhados.
Quando alguém fica, fica porque encontrou contexto — não slogans.
Há muitas formas de criar. Esta é a minha.
Vou ser clara.
Há muitas formas válidas de criar conteúdo.
Mas há coisas que não são para mim.
Stories diárias de outfit e família.
Nada contra quem faz — eu até gosto de ver os dos outros.
Mas não sou eu.
Ganchos forçados.
Vídeos trending.
Falar para uma câmara como se estivesse ali alguém.
Detesto.
Criar não é só escolher formato.
É alinhar com quem és.
E aqui não negocio isto:
coerência vale mais do que frequência.
Perceber que não era estética. Era ética.
Houve um momento em que isto ficou óbvio.
Eu sei que hoje tenho:
mais conhecimento
mais estrutura
mais capacidade de análise
do que muito do lixo digital que anda aí.
Não por ser melhor.
Mas porque fiz — e continuo a fazer — o trabalho que quase ninguém quer fazer:
pensar antes de publicar.
Foi por isso que, em 2026, mudei tudo.
Voltei às raízes.
Voltei a investigar.
A estudar.
A cruzar ideias.
Voltei com o Para Lá do Marketing.
Fechei as Notícias de Social Media.
Mudei a linha editorial do Marketing em Escala.
Não foi uma mudança estética.
Foi uma mudança ética.
O que acontece quando paras de correr atrás do feed
Quando paras de correr atrás do feed, acontece algo curioso.
As respostas mudam.
As conversas ficam melhores.
As pessoas dizem: “isto ficou comigo”.
Não escrevo isto por ego.
Escrevo porque importa.
Porque prova uma coisa simples — e desconfortável:
profundidade ainda encontra espaço.
Não porque “conteúdo longo venceu”.
Mas porque conteúdo com intenção:
cria relação
cria memória
cria confiança
E confiança sustenta tudo o resto.
Isto não é sobre conteúdo. É sobre quem decides ser.
Em 2013 eu demorava 8 a 12 horas a escrever um artigo.
Porque respeitava o tempo de quem me lia.
Isso mudou a minha carreira.
As oportunidades que tive.
As pessoas que se aproximaram.
E é por isso que voltei a isso.
Leva contigo isto — mesmo que incomode:
Conteúdo rápido alimenta o feed. Conteúdo profundo constrói uma carreira.
Criar mais depressa não é criar melhor.
Respeitar o tempo dos outros começa por respeitar o teu próprio pensamento.
O algoritmo esquece. As pessoas lembram-se.
Num mundo cansado de superficialidade, profundidade não é um luxo.
É um diferencial.
E deixo-te com duas perguntas.
Não para responderes aqui. Para te observares:
O que estás a criar por hábito? E o que estás a criar por convicção?
Que tipo de criador queres ser, quando o barulho baixar?
— Helena



Concordo totalmente 👏🏼
Dar com a intenção de ajudar os outros e não apenas pelo ego de mostrar que sabemos e de aparecermos.
Considero que criar conteúdo enriquece as duas partes. Quem cria estimula a sua criatividade e aprofunda conhecimentos, quem lê aprende algo útil e inicia conversas interessantes.
Adorei a consideração " Queixamo-nos que é difícil encontrar pessoas que pensem. Mas criamos conteúdo que dispensam pensamento"! É um pensamento profundo, resume o problema e ao mesmo tempo oferece a solução 🙂