Não estamos a emburrecer. Estamos a operar num sistema que não deixa pensar.
Se o mercado recompensa velocidade e “buzz”, quem é que ainda tem tempo para estratégia?
Há umas semanas tive uma discussão no LinkedIn.
Começou como tantas outras: alguém publicou um post a dizer que estamos a formar profissionais “com menos sentido crítico do que nunca”.
A tese era dura, mas familiar:
“as redes sociais estão a destruir a atenção”
“o conteúdo curto está a deixar-nos rasos”
“a IA está a tornar tudo preguiçoso”
“as pessoas já nem pesquisam, só interrompem colegas”
A publicação tinha o tom de alarme social, com uma conclusão rápida: estamos a “burrificar”.
Eu respondi com uma frase simples - e foi aí que a conversa deixou de ser sobre internet e passou a ser sobre algo muito mais estrutural:
Não estamos a emburrecer. Estamos a operar num sistema que recompensa correr, não pensar.
A conversa parecia sobre IA e redes sociais.
Mas afinal era sobre outra coisa.
E é por isso que estou a escrever este texto hoje.
A pergunta que me ficou a ecoar foi esta:
Estamos a perder pensamento crítico?
Ou estamos a viver num contexto que o torna cada vez mais difícil?
O diagnóstico confortável (e perigoso)
Vamos começar pelo óbvio: há verdade no diagnóstico superficial.
Sim, o consumo excessivo de conteúdo curto tem impacto.
Sim, há sinais de fadiga cognitiva.
Sim, há uma cultura de resposta rápida, de “não tenho tempo para isto”, de “manda-me o link”.
Não é por acaso que brain rot foi eleita palavra do ano em 2024.
Não por ser um conceito científico novo, mas por traduzir uma sensação coletiva difícil de ignorar:
fadiga cognitiva, consumo excessivo de estímulo raso, dificuldade crescente em sustentar atenção e raciocínio prolongado.
O problema começa quando este termo passa a ser usado como explicação total - como se bastasse apontar para “as redes”, “o conteúdo curto” ou “a IA” para fechar a conversa.
Porque brain rot é um sintoma.
Não é a causa.
Mas o problema deste diagnóstico é que ele dá-nos um inimigo simples: as pessoas. Ou a tecnologia.
E quando apontamos um culpado único, fazemos duas coisas:
descansamos a consciência (“a culpa é do TikTok / do ChatGPT / da Gen Z”)
evitamos a pergunta mais difícil: que sistema estamos a construir à volta do trabalho, da aprendizagem e da performance?
Porque a verdade é esta:
um sistema que premia velocidade vai sempre produzir superficialidade.
Mesmo em pessoas inteligentes.
Mesmo em equipas boas.
Mesmo em líderes bem-intencionados.
O que mudou de verdade na aprendizagem
Há uma diferença essencial entre “antes” e “agora” que quase ninguém nomeia bem.
Antes:
havia mais tempo para investigação
mais fricção no acesso à informação
mais espaço para errar, refletir, consolidar
Agora:
a informação chega “pré-mastigada”
a resposta vem em segundos
o caminho encurtou brutalmente
Isto não é bom nem mau por si só.
Mas muda tudo porque:
A tecnologia não elimina pensamento crítico.
Elimina fricção.
E sem fricção, pensar exige intenção.
E aqui entra o contraponto que me fizeram nessa troca no LinkedIn:
“Mas se a automação liberta tempo, existe mais tempo para pensar.”
A frase parece lógica.
Mas tropeça num detalhe gigante:
tempo disponível não é tempo protegido.
Na maioria das empresas, o tempo que se ganha com automação é imediatamente reinvestido em:
mais reuniões
mais canais
mais tarefas
mais urgência
mais output
Ou seja: não ganhámos tempo para pensar.
Ganhámos capacidade para executar mais depressa. E a cultura tratou de preencher o resto.
Aprender mais rápido não é o mesmo que compreender melhor.
Executar mais não é o mesmo que pensar melhor.
Onde o tema muda de eixo: empresas
Foi aqui que eu senti que a conversa precisava de sair do moralismo e entrar no desenho do sistema.
Porque, do lado das empresas, o cenário é contraditório:
recrutam “marketers” sem saber exatamente o que procuram
pedem especialistas para vagas de entrada
acumulam estratégia, execução, análise, escrita, design e vídeo numa só função
querem equipas cada vez mais enxutas
usam IA para acelerar execução e reduzir custos
…e depois queixam-se que as pessoas “não pensam”.
A frase que resume isto é simples:
queremos pensadores, mas organizamos o trabalho para produzir executores.
E a pergunta inevitável é esta:
quando é que, neste sistema, alguém é recompensado por parar para pensar?
Se o teu dia está desenhado para cumprir prazos, responder rápido, produzir em volume e “estar presente”, o pensamento crítico vira luxo.
E luxo, em cultura de urgência, é a primeira coisa a desaparecer.
Uma prova prática (sem romantizar)
Isto não é uma discussão abstrata de LinkedIn.
Também não é uma reflexão distante para mim.
Nos últimos meses, voltei a concentrar-me a 100% na minha empresa e nos meus projetos.
Parei.
Eliminei.
Analisei.
Reconstruí.
E foi precisamente nesse processo - quando saí conscientemente da lógica de “estar sempre a produzir” - que percebi algo desconfortável:
eu própria estava presa na roda dos ratos.
Não por falta de capacidade.
Não por falta de consciência.
Mas porque o sistema recompensa movimento constante, não clareza.
Só quando abrandei, retirei camadas e redesenhei prioridades é que ficou óbvio o quão fácil é confundir atividade com pensamento.
E isso deu-me ainda mais certeza de uma coisa:
se até quem tem estrutura, experiência e intenção cai neste ciclo,
então o problema não é individual.
É sistémico.
E eu vejo este padrão repetido, com nomes e rostos, na minha mentoria Marketing em Escala.
Pessoas altamente capazes, mas permanentemente em modo reação.
Fundadores que dizem que querem clareza, mas vivem em ciclo de urgência.
Equipas com output constante e zero tempo real para raciocínio.
E o que é mais impressionante?
O problema raramente é falta de inteligência.
É falta de estrutura para pensar.
Sem espaço cognitivo, sem rituais de aprendizagem, sem tempo protegido, sem critérios claros de decisão: ninguém aprofunda por milagre.
Mesmo que tenha talento. Mesmo que tenha vontade.
“O mercado decide” - e a armadilha de confundir adaptação com reação
Do outro lado da conversa, apareceu um argumento clássico:
“Quem não se adapta fica para trás.”
“O mercado é rápido.”
“Se não acompanhas o consumidor, morres.”
“Buzz gera vendas.”
Eu não acho que isto seja absurdo. Há aqui verdade.
Mas é precisamente aqui que entra o ponto que separa pensamento crítico de resposta automática:
adaptar… a quê, exatamente?
À velocidade?
Ao algoritmo?
Ao buzz?
À métrica de curto prazo?
Porque há um risco enorme neste raciocínio:
confundir adaptação com reação.
Reação é correr atrás de sinais superficiais.
Adaptação é construir um sistema que responde sem perder intenção.
Buzz não é valor: Coca-Cola vs Jaguar
Foi por isso que eu trouxe dois exemplos.
Um deles foi a Coca-Cola: uma campanha de Natal (com IA) que gerou backlash.
E isto não é uma leitura minha. É o que acontece quando se ignora contexto:
A discussão não era “IA é má”.
Era outra: faltou alma, leitura cultural, contexto.
O outro foi a Jaguar, onde vimos “buzz” e conversa, e depois uma quebra significativa de vendas no trimestre seguinte.
Quando olhamos para além da conversa, os números contam outra história:
O barulho existiu.
O impacto estrutural foi negativo.
E aqui está a frase que muita gente evita:
gerar conversa não é o mesmo que criar valor sustentável.
Quando reduzimos decisões estratégicas a “deu buzz, logo funcionou”, estamos a fazer exatamente aquilo que dizemos criticar: pensamento raso, justificado por sinais imediatos.
Afinal, o que é pensamento crítico?
Pensamento crítico não é:
reagir rápido
seguir tendências
justificar decisões com buzz
confundir visibilidade com sucesso
Pensamento crítico é:
ver o iceberg inteiro
contextualizar decisões
avaliar impacto no tempo
pensar sistema, não só ação
Por isso, para mim, a frase mais importante deste texto é esta:
pensamento crítico não é velocidade de resposta.
É profundidade de leitura.
E sim: conteúdo curto pode dispersar.
Mas a parte mais perigosa é outra.
É quando alguém usa termos e tendências como “já se fala em…” sem ter ido à raiz, sem ter lido, sem ter feito o trabalho de contexto.
Isso não é uma falha individual.
É um reflexo do mesmo sistema: consumo rápido, repetição, pouca consolidação.
Volto à pergunta do início:
Estamos a perder pensamento crítico?
Ou estamos a viver num sistema que o torna cada vez mais difícil?
A minha resposta é esta:
Não estamos a emburrecer.
Estamos a operar num sistema que recompensa correr, não pensar.
E deixo-te algumas frases para guardares, porque são o tipo de coisa que muda decisões:
O problema não é a IA. É o critério.
Buzz mede atenção. Não mede valor.
Executar mais depressa não é pensar melhor.
Estratégia exige tempo e o sistema não o oferece.
Adaptação sem intenção é só reação acelerada.
E talvez a pergunta final seja esta, a única que me interessa mesmo:
Será que o mercado ainda cria condições reais para que as pessoas pensem…
ou apenas para que reajam?
Para terminares este texto com algo prático (sem checklist, sem moralismo), deixo-te três perguntas:
Onde é que estás a correr sem pensar?
Onde é que estás a confundir adaptação com reação?
Onde é que estás a usar ferramentas para evitar decisões difíceis?
— Helena




Gostei bastante da segunda pergunta. 🙂 Normalmente perguntava aos meus clientes "onde estás a reagir", mas agora que penso, identificava essa justificação de "estou a adaptar-me" já como uma reacção. Porque realmente a adaptação às vezes vem camuflada e não passa da reacção e a necessidade constante de fazer mais e mais.