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Transcrição

Para Lá do Marketing com a Renata Aron

Marca pessoal começa na clareza — não na estética.

Escrevo este texto porque há uma confusão silenciosa a crescer no digital: estamos a chamar “marca pessoal” a tudo — quando, muitas vezes, é só estética, tendência e performance.

E a pergunta desconfortável é esta:

Se a atenção está mais cara e mais curta… por que é que continuamos a comunicar como se bastasse “aparecer”?

Este foi o fio do 2.º episódio da 3.ª temporada do Para Lá do Marketing. A conversa foi com a Renata Aron e começou onde quase ninguém começa quando fala de imagem:

na intenção.

Porque imagem sem intenção não é identidade. É ruído.
E o ruído, hoje, não está só nos feeds. Está dentro.

Deixo já um loop aberto, daqueles que ficam a trabalhar na cabeça:

O problema não é seres julgado pela aparência.
O problema é não saberes o que estás a dizer com ela.

A primeira falha: confundir imagem com estética

A Renata contou o momento em que percebeu que “sabia vestir-se”, mas não se reconhecia. Olhava para a própria imagem e sentia um desfasamento: aquilo não batia certo com o que queria comunicar, nem com quem era.

E é aqui que muita gente se perde.

Porque a maioria começa o trabalho de imagem a partir de fora:

  • “Que cores estão na moda?”

  • “Como é que uma pessoa de sucesso se veste?”

  • “O que é que transmite autoridade?”

Mas a pergunta certa é anterior.

Quem és tu e o que é que precisas mesmo de comunicar agora?

Isto parece simples. Mas raramente é.
Especialmente num mercado que recompensa performance e castiga nuance.

E é por isso que tanta gente acaba a construir uma versão “aceitável” de si, em vez de construir uma marca.

Marca pessoal não é personagem. É recorte com coerência.

Houve um momento na live em que a conversa ficou densa: quando entrámos na palavra “autenticidade”.

Toda a gente a usa.
Pouca gente a pratica.

A Renata disse algo que resolve metade do problema:

As pessoas não têm medo de comunicar. Têm medo de não ser aprovadas.

E quando o medo manda, a tendência é esta:

  • copiar um modelo que “parece funcionar”

  • vestir uma autoridade emprestada

  • falar como quem está a representar o papel de “profissional”

O resultado é previsível: cansaço.
Porque sustentar um personagem dá trabalho. E, pior: dá incoerência.

A alternativa não é “ser espontâneo”.
A alternativa é ser intencional.

E aqui entra uma ideia que ficou a ecoar:

Não precisas de mostrar todas as tuas versões.
Precisas de escolher, com clareza, qual é o recorte que faz sentido para o que queres construir.

Isto é maturidade de marca.
E é por isso que consistência não é repetição de formato, é repetição de significado.

O método começa onde quase ninguém quer começar: em identidade

Quando perguntei “onde é que as pessoas começam mal?”, a resposta foi direta:

Começam a tentar encaixar num estereótipo.

Querem parecer “alguém”.
Em vez de se tornarem mais elas.

E o método da Renata é o oposto desse impulso:

  1. comportamento e perfil

  2. gosto pessoal (o que é sustentável, o que dá conforto real)

  3. negócio e público (para quem comunicas, com que intenção)

  4. só depois: construção do universo visual

Isto é importante por um motivo: sustentabilidade.

Se a tua imagem exige esforço todos os dias, não é estratégia, é teatro.
E o teatro aparece. As pessoas sentem.

Foi aqui que a conversa tocou num ponto que eu considero nuclear no Marketing em Escala:

Clareza reduz explicação.
E reduzir explicação é eficiência estratégica.

Quando a tua presença “diz” por ti:

  • poupas energia

  • ganhas velocidade

  • aumentas confiança

Mas para isso… tens de saber o que estás a dizer.

IA: estamos a automatizar tudo. Até a identidade

A meio da conversa, entrou o tema inevitável: IA.

E aqui o episódio ficou ainda mais útil, porque a Renata não caiu no drama nem no entusiasmo fácil.

Ela usa IA.
Mas não copia e cola.

E essa diferença é uma linha ética e estratégica.

O que estamos a ver em 2026 não é apenas excesso de conteúdo.
É excesso de conteúdo igual.

De repente, “toda a gente virou escritor”.
E o que as pessoas estão a sentir não é só fadiga digital.

É uma coisa mais específica:

fadiga de mesmice.

E isso explica duas tendências que surgiram na conversa:

  • o desejo de mais “vida offline”

  • e a procura por experiências com presença (cafés sem Wi-Fi, padarias que viram lugares de encontro, espaços desenhados para conversa — não para produtividade)

Não é anti-tecnologia.
É anti-automatismo.

Eu uso tecnologia todos os dias. E uso IA.
Mas uso com um critério simples:

Se a ferramenta me liberta tempo para pensar, é aliada.
Se a ferramenta me substitui o pensamento, é ruído com velocidade.

E esta frase podia ser a síntese do episódio inteiro:

Imagem sem intenção é ruído.
Conteúdo sem intenção também.

Imagem como activo estratégico: o que muda, na prática

A pergunta “o que muda quando a pessoa vê a imagem como activo?” teve uma resposta que é, no fundo, um mapa:

Muda a segurança.
Muda o posicionamento.
Muda a clareza.

Porque quando sabes o que a tua imagem está a fazer por ti, deixas de improvisar.

E improviso é caro.

A Renata deu um exemplo que devia ser regra em qualquer palestra:

  • conhecer o cenário

  • entender o público

  • escolher o que vestir com intenção

  • usar a imagem para criar rapport mais rápido

Isto não é vaidade.
É estratégia.

E sim: há injustiças e duplos padrões (falámos disso).
Um homem de calças de ganga em palco pode ser “descontraído”.
Uma mulher, muitas vezes, é lida como “desleixada”.

Não porque as pessoas sejam más.
Mas porque o cérebro categoriza rápido e a cultura deixou marcas.

A questão não é “lutar contra isso” com moralismo.
A questão é conhecer o jogo para escolher como entrar nele.

A verdade desconfortável: julgamos — e isso não vai mudar

A pergunta final desta temporada é sempre a mesma:

Qual é a verdade desconfortável sobre marketing, marcas ou negócio que pouca gente gosta de ouvir, mas precisamos de falar mais?

A Renata respondeu com coragem:

Nós julgamos pela aparência. Todos.

E depois fez uma distinção que muita gente evita:

O belo não é “bonito”.
O belo é o que agrada o olhar — e isso é subjetivo, cultural, arquetípico.

Podemos discordar. Podemos achar injusto.
Mas fingir que não existe não nos protege.

Pior: deixa-nos vulneráveis.

Porque se a nossa imagem é a primeira camada de comunicação, ignorá-la não é “ser profundo”.
É abdicar de influência.

E isto liga, diretamente, ao que eu defendo no Marketing em Escala:

A maioria das pessoas não tem um problema de visibilidade.
Tem um problema de clareza.

E clareza não é um post.
É uma decisão.

Começámos com uma pergunta:

Se a atenção está mais cara e mais curta… por que é que continuamos a comunicar como se bastasse “aparecer”?

A resposta, depois desta conversa, é desconfortável mas útil:

Porque é mais fácil seguir um modelo do que construir identidade.
Porque é mais fácil copiar um estereótipo do que fazer o trabalho interno.
Porque é mais fácil “parecer” do que sustentar coerência.

Mas o digital não perdoa ruído por muito tempo.

E se eu tiver de deixar três frases “printáveis” deste episódio, são estas:

  • Imagem sem intenção é ruído com estética.

  • Marca pessoal não é personagem — é recorte com coerência.

  • Num mercado saturado, quem ganha não é quem aparece mais. É quem é mais legível.

Próximo passo

Se sentes que estás a “aparecer” no digital, mas não estás a ser lida(o) com clareza, faz isto hoje (10 minutos, sem drama):

Escolhe 3 peças de conteúdo recentes (post, story, vídeo ou foto) e responde, por escrito:

  1. O que é que esta imagem/presença faz as pessoas concluírem sobre mim em 3 segundos?

  2. Isto está alinhado com o que eu quero que elas sintam (autoridade, proximidade, sofisticação, leveza)?

  3. O que é que aqui é “eu” — e o que é que é só tendência/medo de não agradar?

Se as respostas forem confusas, não tens um problema de conteúdo.
Tens um problema de identidade traduzida.

E a boa notícia é esta: isso resolve-se com intenção, não com volume.


🎙️ Sobre este episódio do Para Lá do Marketing

Neste episódio conversei com Renata Aron, mentora e especialista em imagem pessoal e personal branding, sobre imagem com intenção, identidade vs. estereótipos, a diferença entre marca pessoal e personagem, e o impacto da IA na fadiga digital e na autenticidade.


👤 Sobre o/a convidado/a

Renata Aron é mentora e especialista em imagem pessoal e personal branding. Criou o Método ID, uma abordagem que cruza autoconhecimento, perfil comportamental e estratégia de comunicação para alinhar identidade, presença e imagem — sem personagens e sem fórmulas prontas.


✍️ Sobre a autora

Helena Dias é estratega de marketing e autora do Para Lá do Marketing. Trabalha com fundadores, equipas e marcas que já perceberam que fazer mais deixou de ser resposta - e que crescer exige estrutura, critério e decisões claras.

O seu trabalho cruza marca, receita e comunidade, com foco em desenhar sistemas de crescimento que fazem sentido para o negócio, em vez de acumular táticas isoladas. Defende que o maior problema do marketing atual não são as ferramentas, mas o modelo mental com que continuam a ser usadas.

É fundadora do Marketing em Escala, um projecto que nasce em oposição ao ruído, às fórmulas rápidas e à obsessão por volume. E que existe para ajudar negócios a crescer com intenção, clareza e durabilidade.

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