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Transcrição

Para Lá do Marketing com a Marta Rangel

Comunicar não é falar. É ter responsabilidade.

Há um mito confortável que continua a circular no mercado:

“Toda a gente sabe comunicar.”

Diz-se isto porque toda a gente fala.
Mas comunicar não é produzir som. É produzir entendimento.

E este episódio com a Marta Rangel foi interessante precisamente por isso: começou na comunicação (processo, estratégia, descodificação) e acabou onde a comunicação se torna real — na vida.

Porque quando falamos de comunicação como “soft skill”, esquecemo-nos do essencial:

as mensagens não vivem no ar. Vivem dentro de sistemas.
E os sistemas têm consequências.

O erro não é falar pouco. É falar sem intenção.

A Marta disse uma coisa simples e brutal: há empresas com anos de vida que continuam a achar que o problema é “falta de comunicação”.
E muitas vezes é — mas não por falta de posts. É por falta de processo.

O que falha mais é isto:

  • não saber o que se quer que as pessoas entendam,

  • não descodificar linguagem,

  • confundir marketing com comunicação,

  • e sobretudo: achar que comunicar é só aparecer.

E depois tens o resultado típico: ruído com regularidade.

A IA não vai substituir pessoas. Mas pode substituir pensamento.

Houve um ponto que ficou muito claro: a IA pode acelerar tarefas, mas também pode acelerar erros.
A Marta deu um exemplo perfeito: pede-se um guião, vem um documento “bonito”, repetitivo e com informação trocada. Se não houver sentido crítico, aquilo vai para palco — e corre mal.

Isto devia ser óbvio, mas não é:
a IA não é um cérebro. É um amplificador.

Sem critério, amplifica:

  • superficialidade,

  • confiança falsa,

  • e preguiça mental.

E depois a conversa fez o que poucas fazem: desceu ao terreno.

O episódio ganhou outra densidade quando entrou a maternidade e o trabalho independente — porque aí já não estamos a falar de “mensagens”.

Estamos a falar de:

  • energia real,

  • carga mental,

  • tempo limitado,

  • e uma sociedade inteira a funcionar à custa do trabalho invisível.

A maternidade é o melhor exemplo do que acontece quando a comunicação vive desligada da realidade:
toda a gente diz “cuida de ti”, mas quase ninguém cria condições para isso ser possível.

E quando a Marta fala de mães sem rede de apoio, de mulheres empurradas para o autoemprego por falta de políticas familiares reais, ou de mães penalizadas por faltas inevitáveis (doença, escola, médico), ela está a dizer uma coisa que devia ser óbvia… e não é:

isto não é um tema individual. É macro. É económico. É estrutural.

O sistema redistributivo não é um detalhe. É a base.
Se não nascem crianças, não há população activa, não há descontos, não há pensões.
E mesmo assim, continuamos a tratar mães como “um problema operacional”.

Isto não é falta de empatia.
É falta de inteligência.

Trabalho independente: a liberdade que ninguém romantiza (mas toda a gente exige)

Outro ponto essencial: há uma ideia absurda de que quem trabalha por conta própria tem de estar sempre disponível.
Como se “não ter patrão” fosse sinónimo de “não ter limites”.

E aqui a conversa tocou num ponto que interessa a muita gente: o preço da autonomia.

  • picos de trabalho imprevisíveis,

  • impostos e contribuições pesadas,

  • menos margem para pausas,

  • e uma pressão social constante para “encaixar” tudo.

Muitas pessoas não escolhem o autoemprego por ambição. Escolhem por sobrevivência — porque o mercado não tem lugar para vidas reais.

E isto liga ao tema central do episódio sem esforço:

quando a comunicação não é humana, as políticas não são humanas. E quando as políticas não são humanas, o custo aparece no corpo das pessoas.


Comunicar não é falar bem.

Se eu tivesse de deixar duas frases printáveis deste episódio:

Comunicar não é falar bem. É não mentir sobre a realidade.
E uma sociedade que penaliza mães está a assinar a própria falência — só ainda não percebeu.


Próximo passo

Se lideras uma empresa, uma equipa — ou mesmo o teu próprio negócio — faz este exercício hoje:

Escolhe uma política, expectativa ou “norma” do teu dia-a-dia (horários, reuniões, urgências, disponibilidade, prazos) e responde:

Que tipo de vida é que isto pressupõe?
Quem é que isto exclui silenciosamente (mães, cuidadores, pessoas sem rede)?
O que é que eu estou a chamar “falta de compromisso”… que na verdade é falta de estrutura?

Se isto te incomodar, ótimo.
É sinal de que estás a ver o sistema — e não só o discurso.


🎙️ Sobre este episódio do Para Lá do Marketing

Neste episódio conversei com Marta Rangel, comunicadora e ex-jornalista, sobre o que realmente falha na comunicação hoje: a falta de intenção, de escuta e de descodificação.

Falámos também de maternidade, trabalho independente e das estruturas invisíveis (ou da ausência delas) que continuam a penalizar quem tem corpo, filhos, limites e vida — dentro e fora das empresas.


👤 Sobre a convidada

Marta Rangel é comunicadora, ex-jornalista e trabalha com marcas, líderes e organizações para comunicar com mais clareza, presença e impacto. Move-se entre media, palco e estratégia, com uma visão 360 construída ao longo de mais de duas décadas de experiência — e defende que comunicar não é falar mais, é ser entendido.


✍️ Sobre a autora

Helena Dias é estratega de marketing e autora do Para Lá do Marketing. Trabalha com fundadores, equipas e marcas que já perceberam que fazer mais deixou de ser resposta - e que crescer exige estrutura, critério e decisões claras.

O seu trabalho cruza marca, receita e comunidade, com foco em desenhar sistemas de crescimento que fazem sentido para o negócio, em vez de acumular táticas isoladas. Defende que o maior problema do marketing atual não são as ferramentas, mas o modelo mental com que continuam a ser usadas.

É fundadora do Marketing em Escala, um projecto que nasce em oposição ao ruído, às fórmulas rápidas e à obsessão por volume. E que existe para ajudar negócios a crescer com intenção, clareza e durabilidade.

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