Este episódio começou (e acabou) como começam muitas coisas na internet: com falhas, tentativas, ajustes — e a necessidade de seguir na mesma.
Eu já comecei lives com a câmara ao contrário, já tive convidados que me ouviam e eu não os ouvia, já tive gravações que ficaram inutilizáveis.
E talvez seja por isso que continuo a fazer lives:
não é o formato “perfeito”. É o formato possível. E humano.
“Sou mãe e trabalho.” E isso não é pouco
Pedi à Sara para se apresentar.
Ela respondeu com uma honestidade que desarma:
“90% da minha vida é consumida pelos meus filhos. Tenho três pequeninos. O resto fica para o trabalho.”
E depois vem a frase que muitas mulheres conhecem, mas poucas dizem sem culpa:
“Não gosto de dizer que deixas de ter vida… mas é um bocadinho isso. A tua vida passa a funcionar em função deles.”
Eu senti isto na pele — e ainda mais agora: estou grávida de 24 semanas.
E quando já tens um filho, o segundo não é “mais um”. É uma mudança estrutural.
Há coisas que deixam de caber.
E isso obriga-nos a fazer escolhas mais conscientes — não mais heroícas.
O que a Sara recusa conscientemente
Num mundo obcecado com visibilidade, crescimento e “ir a todas”, perguntei-lhe:
o que é que tu recusas?
A Sara não respondeu com teoria. Respondeu com decisões.
Recusou:
estar em todas as plataformas (preferiu profundidade a dispersão)
formatos que a desalinhavam (vídeo, por exemplo)
a lógica do “sempre mais” (mais faturação, mais clientes, mais exposição)
E disse uma frase que devia ser tatuada na testa de muita gente:
“Eu nunca quis fazer 5 ou 10 mil euros por mês à custa de perder controlo sobre o meu tempo.”
O ponto não é não crescer.
É não vender liberdade para comprar performance.
Evoluir não é crescer
Há uma diferença subtil, mas essencial, na forma como a Sara vê a carreira:
“Eu quero evoluir, mas prefiro evoluir do que crescer.”
Crescer, para muita gente, virou sinónimo de volume.
Evoluir pode ser:
fazer melhor
escolher melhor
sustentar melhor
viver melhor
E isto encaixa perfeitamente na forma como eu penso “escala” no Marketing em Escala:
não é fazer mais. É estruturar para aguentar.
Presença estratégica vs. produção compulsiva
Perguntei: onde é que as pessoas confundem presença com compulsão?
A resposta da Sara foi simples e brutal:
quando o único KPI é volume.
Quando o critério passa a ser “aparecer”, a qualidade cai.
E a audiência sente.
E ainda pior:
quando publicas em todo o lado sem profundidade, estás a treinar as pessoas a esperarem pouco de ti.
Presença estratégica é:
escolher onde faz sentido estar
definir uma cadência que consegues sustentar com qualidade
assumir “nãos” como decisão estratégica (não como limitação)
Criar vídeo não é obrigatório. O desalinhamento é que custa caro
Falámos disto sem vergonha:
há pessoas que não conseguem “falar para a câmara”.
Eu incluída (já o afirmei diversas vezes).
Eu consigo conversar.
Consigo pensar em voz alta com alguém.
Consigo construir raciocínio num diálogo.
Mas aquele formato de “olhar para a lente e despejar conteúdo”… não me serve.
E não é falta de coragem, mas falta de verdade.
Quando tentas sustentar um formato que te esgota, ele morre.
E morre rápido.
O risco real de um líder delegar a própria voz
Como é que um líder se queima quando delega a comunicação?
Não é pelo “erro técnico”.
É pela quebra de coerência.
Se no offline és direto, informal e pragmático, mas o teu LinkedIn parece um manual corporativo, as pessoas percebem.
E quando percebem, deixam de ler.
A Sara disse algo que eu gostei muito:
ghostwriting não é fraude se for tradução do que está na tua cabeça.
Mas para isso, há um pré-requisito:
saber quem és e o que defendes.
Antes de delegares a voz (a um ghostwriter ou mesmo a uma ferramenta de IA), tens de ter claras respostas a perguntas como:
para quem é que eu quero falar?
o que é que eu quero defender?
do que é que eu não abdico?
como é que eu quero ser visto?
Sem isso, delegar comunicação é entregar reputação sem mapa.
Quando estás a posicionar-te… e quando estás só a performar
A Sara nunca trabalhou com um cliente que assumidamente quisesse “performar”, mas disse o essencial:
percebe-se com o tempo.
Porque posicionamento tem coerência e performance tem desalinhamento.
É simples:
o que a pessoa escreve bate certo com as decisões que toma?
Se não bate, eventualmente aparece.
E quem conhece a pessoa nota rápido.
Estruturar o que sabes dá medo
Houve um momento íntimo nesta conversa: a Sara está a documentar a metodologia dela.
E eu perguntei:
o que é mais difícil — estruturar o que sabes ou assumir que sabes o suficiente?
Ela respondeu sem hesitar:
assumir que sei o suficiente.
Porque quando formalizas, deixas de te poder esconder atrás de:
“foi só um bom cliente”
“foi só uma boa fase”
“foi só intuição”
Estruturar é assumir responsabilidade pela tua competência.
E isso mexe com autoestima, crenças e validação externa.
O maior erro no LinkedIn
Para a Sara, o modelo mental errado é achar que:
o LinkedIn é uma máquina de viralidade baseada em truques.
Não é.
O LinkedIn é um sistema de reputação contínua: cruza identidade, histórico e coerência temática.
E isto explica porque é que:
um post pode ter 2 likes
e outro, no dia seguinte, ter 500 likes e 100 comentários
sem mudares a hora, sem mudares “o algoritmo”, sem mudares nada
A variável que mais pesa, no fim, é a mensagem.
E a coragem de dizer algo com ponto de vista.
Verdade desconfortável do episódio
A pergunta final desta temporada é fixa:
Qual é uma verdade desconfortável sobre marcas, negócios ou comunicação que pouca gente gosta de ouvir, mas precisamos falar mais?
A Sara respondeu:
“A comunicação escrita não é commodity.”
Se achas que “texto é texto” e é só preencher espaço, vais acabar com:
conteúdo genérico
que podia ser do teu concorrente
ou de ninguém em particular
Sem voz e ponto de vista, a comunicação deixa de ser ativo e passa a ser ruído.
Próximo passo
Três perguntas para te orientares (mesmo que doa um bocado):
Onde é que estás a tentar “ir a todas” só para não parecer que ficaste para trás?
Que formato estás a sustentar por tendência — e não por verdade?
Que parte da tua comunicação já deixou de soar a ti?
🎙️ Sobre este episódio do Para Lá do Marketing
No 5.º episódio da 3.ª temporada do Para Lá do Marketing, conversei com Sara Nunes sobre consistência sem compulsão, escolhas conscientes no digital, maternidade e trabalho independente, o mito do “sempre mais”, e o que muda quando a comunicação deixa de ser vista como um detalhe e passa a ser reputação.
👤 Sobre a convidada
Sara Nunes é ghostwriter para LinkedIn e trabalha com CEOs, empreendedores e líderes. Defende um modelo de presença focado em profundidade, coerência e sustentabilidade — com escrita que soa a pessoas reais, não a manuais corporativos.
✍️ Sobre a autora
Helena Dias é arquiteta de crescimento e autora do Para Lá do Marketing. Trabalha com fundadores, equipas e marcas que já perceberam que fazer mais deixou de ser resposta - e que crescer exige estrutura, critério e decisões claras.
O seu trabalho cruza marca, receita e comunidade, com foco em desenhar sistemas de crescimento que fazem sentido para o negócio, em vez de acumular táticas isoladas. Defende que o maior problema do marketing atual não são as ferramentas, mas o modelo mental com que continuam a ser usadas.
É fundadora do Marketing em Escala, um projecto que nasce em oposição ao ruído, às fórmulas rápidas e à obsessão por volume. E que existe para ajudar negócios a crescer com intenção, clareza e durabilidade.









