Há uma frase que a Margarida disse a meio desta conversa e que ficou a picar:
“Quando delegamos o pensamento estratégico à IA, perdemos essa massa cinzenta. O músculo que não se treina fica flácido.”
Eu ouvi isso e pensei: é sobre IA, mas não é só sobre IA. É sobre o que acontece quando paramos de nos incomodar com as perguntas difíceis. Sobre o que acontece a uma carreira quando a pessoa dentro dela deixou de pensar por conta própria.
Este é o 8.º episódio da 3.ª temporada. A Margarida Porto é fundadora da Ricas em Construção, especialista em trabalho remoto — e alguém que não faz pose.
Uma irrequieta com demasiada curiosidade sobre demasiadas coisas
Foi assim que a Margarida se apresentou. Sem cargo, nem lista de credenciais.
Gosto desta resposta porque é rara. A maioria das pessoas, quando lhes perguntam quem são, respondem com o que fazem. Fazer e ser são coisas diferentes, mas confundimo-las tanto que já nem reparamos.
Eu própria demorei a conseguir apresentar-me sem o cargo à frente. E confesso que ainda hoje o meu primeiro instinto é esse.
A Margarida tem uma lista de momentos que a moldaram. Todos diferentes na superfície, todos com a mesma raiz: a recusa de pôr o valor do trabalho acima do valor de si mesma.
A peixeira, o champanhe e o burnout
Três momentos. Vale a pena ir a cada um.
No primeiro, a Margarida estava num estágio na Grécia, a trabalhar em restauração, com sete copos de champanhe numa bandeja. Uma família de clientes que não lhe dava espaço para servir, um miúdo que se mexeu na hora errada, e uma escolha em frações de segundo: derramar os copos sobre uma senhora idosa ou sobre o miúdo que causou o problema. Escolheu o miúdo. E levou uma descompostura à mesma.
“Foi um acidente que nem sequer a culpa foi minha.”
O segundo momento foi uma conversa com a peixeira do Pingo Doce, já em burnout. A peixeira partilhou o salário, a Margarida percebeu que recebia menos — e que estava a destruir o cérebro por menos dinheiro do que alguém a vender peixe. Ali começou a perguntar: o que vale o trabalho, afinal? É o título? O dinheiro? O status que eu acho que ele tem?
O terceiro foi o burnout em si. O sintoma que a fez parar não foi o choro, que para ela era banal. Foi quase bater num carro a baixa velocidade porque o tempo de reação tinha desaparecido. Foi não conseguir lembrar o nome da melhor amiga.
“Só recuperei totalmente um ano e meio depois.”
Três histórias, o mesmo denominador: o trabalho como identidade cobra um preço que ninguém nos avisa de antemão.
Burnout não é só trabalhar muito
Uma pessoa desempregada também pode estar em burnout. A Margarida disse-o sem hesitar — e eu concordo completamente. A exaustão de procurar trabalho sem encontrar, a ansiedade financeira que não passa, o ciclo que vai descendo sem parar. Tudo isso é estar exausto. O burnout não precisa de horas extras para existir.
E depois de um burnout a sério, ficamos mais sensíveis a qualquer trigger. Como uma lesão no joelho que nunca fica completamente bem — anda-se, mas o joelho lembra. A ilusão de que já passou e podemos voltar ao ritmo anterior é o início da recaída.
Partilhei também da minha própria experiência: tenho esse padrão de quando paro, o corpo desliga. Na primeira gravidez trabalhei de segunda a sábado até ao último momento. Nesta segunda não consigo — o corpo não deixa. Pode ser a idade, pode ser a filha de 5 anos, pode ser que o sistema já aprendeu o custo.
Falámos também do impacto de estar na natureza — há um estudo da Universidade de Michigan, publicado na Frontiers in Psychology, que mediu exatamente isto: 20 a 30 minutos numa zona verde reduzem o cortisol 21% por hora. A Margarida tem o seu atalho para os dias em que não é possível sair: sons de natureza no YouTube. Biologicamente, a ligação existe — mesmo que o passarinho seja gravado.
A gestão de energia não é um luxo, é sim manutenção básica.
O projeto que nasceu de uma promessa a si própria
A Ricas em Construção começou como self-accountability.
A Margarida estava em burnout, queixava-se constantemente, e percebeu que a queixa era o hábito que a prendia. Para o quebrar, precisava de um compromisso público com o oposto. Em setembro de 2021 abriu uma página sobre finanças pessoais — não porque fosse especialista, mas porque tinha aprendido muito à força de salário baixo e despesas altas. Em dezembro do mesmo ano estava a trabalhar remotamente para uma empresa no Dubai.
As pessoas começaram a perguntar sobre trabalho remoto. Ela mudou de tema. A comunidade cresceu. Hoje tem centenas de membros numa subscrição privada.
A origem diz mais do que os números. Nasceu da necessidade de parar de se queixar — e o compromisso público foi o que a forçou a agir em privado.
IA, músculos e o perigo de delegar o pensamento
A IA não vai desaparecer. Mas há duas formas de a usar: para não ter de pensar, ou para pensar mais longe.
Quem a usa para não pensar perde o músculo. Com o tempo, já não sabe fazer sem ela. E quando o sistema falha, quando o contexto muda, quando é preciso decidir em cima do joelho — não há estrutura própria para apoiar.
Quem parte de uma estratégia própria e usa a ferramenta para ir mais longe — esse fica mais forte, não mais dependente.
Eu uso IA todos os dias. Peguei na transcrição desta live, processei-a, cruzei com os meus pensamentos, construí este texto a partir daí. Tudo com IA. Mas a reflexão é minha. O ponto de vista é meu. A ferramenta ajuda a estruturar — não a pensar por mim.
E a palavra do ano do dicionário de Oxford em 2024 foi brain rot — o apodrecimento do cérebro. É o nome de um processo que já está a acontecer: consumir sem processar, receber sem decidir. E isto não é exagero dramático, mas sim um diagnóstico.
O futuro não pertence aos especialistas. Pertence a quem sabe ligar pontos.
A Margarida identificou uma mudança no mercado de trabalho: os perfis generalistas estão a ganhar terreno.
Não porque a especialização deixou de ter valor — tem. Mas porque a interseção de conhecimentos é onde a inovação acontece. Um especialista muito profundo numa área pode ter dificuldade em transpor esse conhecimento para outro contexto. Um generalista curioso vê ligações que o especialista não vê porque nunca saiu do silo.
E a IA está a acelerar isto: as tarefas especializadas e repetíveis são as primeiras a ser automatizadas. O que fica é o que a máquina não consegue — julgamento, contexto, criatividade, relação.
Daqui a 2 ou 3 anos, disse a Margarida, as mudanças já vão ser evidentes. Não daqui a 10.
Duas pessoas completamente diferentes. Uma conversa completamente humana.
Este foi o momento da conversa que eu não quero que passe despercebido.
A Margarida contou que num contexto de trabalho remoto conheceu um senhor do Paquistão — altamente conservador, muçulmano. Numa dinâmica de apresentação entre a equipa, começaram a fazer perguntas um ao outro.
Ele disse-lhe: “Tu és a primeira pessoa LGBT que eu conheço.” Ela respondeu: “E tu és a primeira pessoa conservadora e muçulmana que eu conheço.”
E ficaram ali, os dois, com curiosidade genuína. Sem julgamento, sem agenda. Só a tentarem perceber o outro.
“Foi uma conversa tão aberta, tão confortável. Ele não era contra o que eu era — ele só não compreendia.”
Eu ouvi isto e pensei: quantas conversas deixamos de ter porque já decidimos antes o que a outra pessoa é? Quantas bolhas mantemos intactas porque é mais fácil do que ter curiosidade?
Fala-se muito hoje de estudar IA. Fala-se pouco de estudar inteligência emocional. De desenvolver empatia. De sair da bolha — não só da profissional, mas da cultural, da de classe, da de visão de mundo. São essas saídas que mudam a forma como pensamos. E são precisamente essas que o algoritmo nunca nos vai sugerir.
Verdade desconfortável do episódio
“Nós entrámos numa era em que dizemos muita coisa para chocar. E não temos responsabilidade sobre como fazemos isso.”
O algoritmo incentiva o choque. Quem choca mais ganha mais atenção. E criadores, marcas e pessoas comuns entram nesta corrida sem perceber que estão a contribuir para um ambiente onde já ninguém distingue opinião de provocação estratégica.
Há uma ironia aqui: ao combater o que é polémico com mais barulho, estamos a amplificar o que queremos diminuir. Às vezes o melhor contraponto é o silêncio. Não a cumplicidade — o silêncio intencional que nega visibilidade ao que só existe para chocar.
Comunicar com responsabilidade não é não dizer nada difícil. É saber o que estás a fazer quando dizes.
Próximo passo
Três perguntas. Sem florear.
Qual foi a última vez que tiveste uma conversa com alguém completamente fora da tua bolha — profissional, cultural, de visão de mundo?
O que é que estás a comunicar só para parecer que estás a fazer algo — quando o silêncio seria mais honesto?
Onde é que estás a usar a IA para não ter de pensar — e já reparaste no que perdeste entretanto?
🎙️ Sobre este episódio do Para Lá do Marketing
No 8.º episódio da 3.ª temporada do Para Lá do Marketing, conversei com Margarida Porto sobre burnout e recuperação, trabalho remoto como filosofia, o futuro do mercado de trabalho, IA como ferramenta de potenciação vs. delegação do pensamento, e a responsabilidade do que comunicamos.
🔎 Recursos mencionados neste episódio
📰 Artigos no Observador e PME Magazine — escritos pela Margarida Porto sobre o futuro do trabalho remoto e as transformações no mercado de trabalho.
🛠️ Loveable — ferramenta de criação de sites com IA, mencionada na conversa como exemplo de como a IA já permite fazer coisas que antes exigiam programação.
🎧 Sons de natureza no YouTube — referidos pela Margarida como estratégia concreta para recuperar foco e bem-estar mental quando não é possível sair para a natureza.
🔬 "Urban Nature Experiences Reduce Stress in the Context of Daily Life" — estudo de MaryCarol Hunter, publicado na Frontiers in Psychology (2019), sobre o impacto de 20 a 30 minutos na natureza na redução dos níveis de cortisol.
📞 Linhas de apoio em Portugal — para quem está a passar por burnout, depressão ou exaustão emocional:
SNS 24 — 808 24 24 24 (24h/dia, inclui aconselhamento psicológico)
SOS Voz Amiga — 213 544 545 (dias úteis, das 15h30 às 00h30)
Conversa Amiga — 808 237 327 (dias úteis das 15h às 22h, fins de semana das 19h às 22h)
👤 Sobre a convidada
Margarida Porto é fundadora da Ricas em Construção, especialista em trabalho remoto e construção de comunidade. Construiu uma comunidade de centenas de membros sem publicidade paga, a partir de um compromisso simples: parar de se queixar e começar a agir. A sua comunicação é deliberadamente informal, honesta e sem poses — o que, num mercado cheio de discursos polidos, acabou por ser a estratégia mais eficaz.
✍️ Sobre a autora
Helena Dias é arquiteta de crescimento e autora do Para Lá do Marketing. Trabalha com fundadores, equipas e marcas que já perceberam que fazer mais deixou de ser resposta - e que crescer exige estrutura, critério e decisões claras.
O seu trabalho cruza marca, receita e comunidade, com foco em desenhar sistemas de crescimento que fazem sentido para o negócio, em vez de acumular táticas isoladas. Defende que o maior problema do marketing atual não são as ferramentas, mas o modelo mental com que continuam a ser usadas.
É fundadora do Marketing em Escala, um projecto que nasce em oposição ao ruído, às fórmulas rápidas e à obsessão por volume. E que existe para ajudar negócios a crescer com intenção, clareza e durabilidade.









