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Transcrição

Para Lá do Marketing como Raul Ribeiro

Produtividade não é fazer mais. É não desperdiçar o que importa.

Há uma pergunta que o Raul usa como filtro para tudo o que faz:

“Esta tarefa acrescenta valor ao cliente? Ele estaria disposto a pagar por ela?”

Parece simples. E é. O problema é que a maioria das empresas nunca a faz.

E quando não a fazem, automatizam o que não devia existir, medem o que não importa, e ficam cada vez mais ocupadas — e cada vez menos produtivas.

O Raul Ribeiro é consultor de Qualidade e Lean para empresários de serviços. Falou connosco da China, com uma VPN a fazer o que podia. Este é o 9.º e último episódio da primeira parte da 3.ª temporada. Voltamos em outubro.

Preso na roda dos ratos

O Raul trabalhava por turnos em energias renováveis. E em paralelo tinha uma agência de viagens. As horas de sono eram a variável de ajuste — a única coisa que sobrava para cortar quando o tempo não chegava.

“Cheguei a uma névoa mental em que não conseguia fazer nada. Por mais horas que aplicasse dos dois lados, nunca era fenomenal. Estava na roda dos ratos, apenas a tentar respirar.”

Foi nesse momento que encontrou o Lean. Não num livro de desenvolvimento pessoal — numa necessidade real de sobreviver ao dia a dia. E fez o que faz sempre com o que aprende: mergulhou, aplicou, e mediu o tempo entre a aprendizagem e a prática.

“A diferença entre aprender e aplicar — se eu conseguir diminuir esse espaço, estou a evoluir muito rápido.”

Há algo nisto que qualquer pessoa que já esteve encostada à parede reconhece: as competências mais valiosas não vêm de certificados. Vêm de ter de encontrar uma saída.

O que é o Lean — e o que o Jidoka tem a ver com IA

O Lean nasceu no Japão do pós-guerra. Um país sem recursos, sem fornecedores, sem capacidade de exportar. A Toyota percebeu que a única forma de bater os americanos era fazendo mais com menos — e que isso exigia eliminar tudo o que não acrescentasse valor ao cliente.

Usou dois pilares:

  1. O Just-in-Time — fazer o que o cliente quer, quando quer, sem acumular stock.

  2. E o Jidoka — que é onde a conversa ficou mais interessante.

O Jidoka foi criado por Sakichi Toyoda para as fábricas de tear: quando uma linha se rompia, a máquina parava automaticamente em vez de continuar a produzir peças defeituosas até ao fim. Automação com toque humano. Uma pessoa passou a conseguir supervisionar dezenas de máquinas em vez de uma — porque a máquina sinalizava o problema, mas a decisão era humana.

O Raul disse uma coisa que não consigo deixar de sublinhar:

é exatamente isto que está a falhar na forma como usamos IA hoje.

Deixamos o processo seguir até ao fim sem verificar se a linha se rompeu. Publicamos o texto gerado sem ler. Enviamos a proposta sem verificar. E quando o erro chega ao cliente, já foi longe de mais.

As fábricas europeias tinham mais robôs do que a Toyota nos anos 70. Tinham índices de produtividade mais baixos. Porque investiram em automação sem antes perceber onde estava o valor para o cliente. Automatizaram o desperdício.

“De nada vale ter uma luz acesa num quarto onde não está ninguém.”

A confusão entre ocupação e produtividade

Há uma vaga enorme agora a vender produtividade com IA. Agentes, automações, prompts, cheat sheets geradas em segundos. O Raul não é contra — usa IA, disse-o claramente. Mas faz uma distinção que a maioria ignora:

Produtividade é valor acrescentado a dividir por tempo.

Não é tarefas concluídas. Não é ferramentas utilizadas. Não é horas passadas a trabalhar até às três da manhã a fazer agentes porque os tokens são mais baratos.

Se a tarefa que estás a automatizar não acrescenta valor ao cliente, ficaste mais ocupado a fazer menos.

“Se tens 150 ferramentas de produtividade — usas todas? E se as usas todas, acrescentam valor? Desafio alguém a provar-me que sim.”

Eu própria cheguei a um ponto no início deste ano em que percebi que estava mais ocupada do que nunca — e a IA tinha contribuído para isso. Comecei a fazer mais coisas em cima de mais coisas. Partilhei isso mesmo aqui:

O problema nunca foi a velocidade. Era a direção.

Sete meses pela Ásia com o negócio em pausa — e sem pedir desculpa

O Raul está a viajar há sete meses com a esposa. Não tem clientes ativos. Pôs o negócio em pausa intencional.

A razão não foi logística. Foi de qualidade.

“Ou acrescento o valor com a qualidade que me identifica, ou aproveito a viagem a 100%. Escolhi a viagem.”

A China bloqueia redes sociais. A internet nas Filipinas é horrível. Entregar abaixo do seu padrão não era uma opção — e fingir que conseguia gerir clientes nessas condições seria exactamente o oposto do que defende.

Não deixou de criar: publica no LinkedIn quase todos os dias, a newsletter Lean para Serviços sai todas as semanas. Mas separou conteúdo de clientes. E fez essa escolha de forma consciente, sem romantizar nenhum dos lados.

Pausa não é abandono. É saber o que é inegociável antes de dizer sim a qualquer coisa.

Verdade desconfortável do episódio

“A maior parte das empresas não sabe o que é o valor acrescentado para o cliente. E sem isso, todo o resto — automações, processos, equipas, reuniões — é desperdício organizado.”

O exercício que o Raul propõe é simples e brutal: converte as horas de reuniões desta semana em euros. Depois diz ao cliente que esse tempo foi incluído no preço do serviço.

“Sentirías-te confortável a dizer ao cliente: demorei 20 horas a fazer isto, mas entrego-te em 2? O que é que o cliente ia responder?”

Ninguém quer ouvir isso. Mas é o que está a acontecer.

Portugal tem os índices de produtividade mais baixos da Europa. Não porque os portugueses não trabalhem. Mas porque passamos o tempo a fazer coisas que o cliente nunca pediu, nunca valorizou, e nunca pagaria se soubesse que estavam lá.

A pergunta não é como fazer mais. É quantas das coisas que fazes hoje passam no filtro: o cliente estaria disposto a pagar por isto?

Se a resposta te desconfortar, já tens o diagnóstico.

Próximo passo

Três perguntas. Para responder esta semana, não em outubro.

  1. Onde é que estás ocupado — e onde é que estás produtivo? São a mesma coisa?

  2. Escolhe três tarefas recorrentes e passa-as pelo filtro: o cliente estaria disposto a pagar por isto? O que sobra?

  3. Há alguma decisão que estás a adiar porque parece que tens de fazer tudo antes de poder parar? O Raul parou. O que é que te impede?

🎙️ Sobre este episódio do Para Lá do Marketing

No 9.º e último episódio da primeira parte da 3.ª temporada do Para Lá do Marketing, conversei com o Raul Ribeiro sobre Lean e Qualidade aplicados a empresas de serviços, a diferença entre ocupação e produtividade, o que o Jidoka da Toyota tem a ver com o debate atual sobre IA, e o que é preciso construir para parar sem o negócio cair.


🔎 Recursos mencionados neste episódio

📧 Lean para Serviços — newsletter semanal do Raul Ribeiro com casos práticos de Lean e Qualidade aplicados a empresários de serviços.


👤 Sobre o convidado

Raul Ribeiro é consultor de Qualidade e Lean para empresários de serviços. Ajuda a identificar onde está o valor acrescentado para o cliente — e a eliminar tudo o resto. Aplica as mesmas metodologias à vida pessoal. Neste momento está algures na Ásia, a filmar, a escrever, e a provar que uma pausa bem construída não é desistir.

✍️ Sobre a autora

Helena Dias é arquiteta de crescimento e autora do Para Lá do Marketing. Trabalha com fundadores, equipas e marcas que já perceberam que fazer mais deixou de ser resposta - e que crescer exige estrutura, critério e decisões claras.

O seu trabalho cruza marca, receita e comunidade, com foco em desenhar sistemas de crescimento que fazem sentido para o negócio, em vez de acumular táticas isoladas. Defende que o maior problema do marketing atual não são as ferramentas, mas o modelo mental com que continuam a ser usadas.

É fundadora do Marketing em Escala, um projecto que nasce em oposição ao ruído, às fórmulas rápidas e à obsessão por volume. E que existe para ajudar negócios a crescer com intenção, clareza e durabilidade.

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